À Procura da Felicidade (2006), uma volta ao Neo-Realismo Italiano?

22 02 2010

Neo-Realismo Italiano: Uma breve introdução

O Neo-Realismo Italiano foi um movimento cinematográfico que surgiu na Itália no período do pós-guerra, entre 1945 e 1952; num momento em que o povo italiano estava mergulhado em uma série de graves problemas sociais, fruto dos horrores da Segunda Guerra Mundial.

Num processo de reflexão sobre a situação da Itália neste período, e frustrados com a crescente onda de filmes hollywoodianos que “pervertiam” a realidade, alguns cineastas começaram a produzir filmes capazes de “reproduzir” a real situação da sociedade italiana. Estes cineastas priorizavam as filmagens em locações reais, a contratação de não-atores, e a utilização de planos sequência. Além disso, as próprias histórias narradas pela câmera, em sua maioria, eram voltadas para o contexto histórico-social vivido pelos italianos.

O grande marco inicial desse movimento foi o filme de Roberto Rosselline, Roma, cidade aberta (1945). Formam a “trindade neo-realista”, juntamente com Rosselline, os cineastas: Vittorio De Sica (Ladrões de Bicicleta) e Luchino Visconti (Sedução da Carne). Porém, muitos outros cineastas italianos compartilharam do movimento neo-realista, como também, tantos outros do mundo inteiro.

Ladrões de Bicicleta (1948) e À Procura da Felicidade (2006)

Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica é um dos clássicos do Neo-Realismo Italiano. Através da história de Antonio Ricci, que mais parece um coadjuvante a serviço dos reais objetivos da narrativa, o diretor apresenta uma Itália afundada em desigualdades sociais. Como estratégia, De Sica utiliza a perda de uma bicicleta, e a busca pela manutenção do emprego, há pouco adquirido, para fazer Ricci percorrer pela cidade, revelando desta forma, uma Itália caótica.

Em contraposição, temos Chris Gardner, um afro-americano, apresentado em À Procura da Felicidade (2006), do também italiano, Gabrielle Muccino. Gardner é um homem desempregado, que vive à custa da venda de uma série de aparelhos medidores de densidade óssea. O filme é baseado em uma história real, ambientada em uma São Francisco (EUA) dos anos 1980. Porém, em momento algum, a realidade social americana é posta em xeque.

Enquanto, através dos olhos de Ricci, pode-se observar uma realidade coletiva do contexto italiano, pois percebemos, logo no início do filme, que muitos outros lençóis foram penhorados; no filme de Muccino, o contrário acontece. Não há coletividade, o que se vê é o individualismo do personagem americano sendo exaltado para valorizar seus conflitos pessoais. São as suas lutas, as suas dificuldades, a sua família, o seu sonho, e, por conseguinte, a sua vitória.

Se, em todos os momentos de Ladrões de Bicicleta, somos impelidos a olhar, não apenas para Antonio Ricci e seu filho Bruno, mas para uma sociedade, onde muitos outros “antonios” e “brunos” tentam sobreviver, À Procura da Felicidade valoriza cada detalhe da vida de Gardner e seu filho. São os desafios pessoais desse americano que importa, e não a coletividade. Ainda que o diretor, Gabrielle Muccino, utilize algumas técnicas neo-realistas: o filho do Gardner é feito por um não-ator; há muitos planos sequência feitos em locações “reais” (note que é uma história dos anos 1980, mas produzida em 2006); há a contratação de sem-tetos reais para compor a cena do albergue, etc. Ainda assim, não é a sociedade americana dos anos 1980 que está na tela, mas um único personagem. “É o triunfo, afinal, do individualismo perseverante”, segundo Cléber Eduardo.

É a apropriação das técnicas neo-realistas a serviço do cinema hollywoodiano com a intenção de criar um fato real: “Inspired by a true story” (Inspirado em uma história verdadeira).

Talvez, o diálogo feito com o movimento italiano tenha sido uma forma de autenticação. Por outro lado, porém, de nada vale apropriar-se de uma linguagem para criar um discurso que a desconstrói em sua essência.

À Procura da Felicidade, em alguns aspectos, faz-nos relembrar da grandiosidade criada por De Sica com o clássico Ladrões de Bicicleta, mas longe está, no tempo e na forma, de caracterizar-se como uma obra do movimento neo-realista.

Referências Bibliográficas:

À PROCURA DA FELICIDADE (filme). Gabrielle Muccino, 2006. 117 min. son. color. Estados Unidos;

EDUARDO, Cleber. In: REVISTA cinética: cinema e crítica. Disponível em: <http://www.revistacinetica.com.br/happyness.htm> Acesso em: 12 de janeiro de 2010;

FABRIS, Mariarosaria. Neo-Realismo Italiano. In: MASCARELO, Fernando (Org.). História do cinema mundial. Campinas: Papirus, 2006. (Campo Imagético);

LADRÕES DE BICICLETA (filme). Vittorio De Sica, 1948. 88 min. son. P&B. Itália;





ALTERAÇÕES NO MODO DE PENSAR O COMPORTAMENTO HOMOSSEXUAL AO LONGO DA HISTÓRIA

16 02 2010

Conceito de homossexualidade

A homossexualidade é definida como a preferência sexual por indivíduos do mesmo sexo. Este conceito é um tanto vago, já que o termo “preferência” pode conotar a tendência a escolher, optar, e hoje se reconhece que a homossexualidade não é mais vista como opção, mas como uma orientação sexual (TESON, 1989).
Para Teson (1989), o termo orientação sexual determina vários significados diferentes, e existem três orientações sexuais, todas as três normais, naturais e fixas em adultos: heterossexual –o indivíduo que se sente sexualmente atraído por pessoas do mesmo sexo; bissexual – o indivíduo que se sente atraído tanto por pessoas de ambos os sexos, não necessariamente no mesmo grau de intensidade, além da homossexualidade.
Fabrício Viana (2009) defende que a homossexualidade é muito mais do que a orientação sexual por pessoas do mesmo sexo, ela é uma expressão natural da sexualidade humana e, por isso, envolve também afetividade e relacionamentos. Não apenas sexo com o mesmo sexo.
Segundo Colin Spencer (1999), originariamente, o termo homossexualidade apareceu em um panfleto alemão de autoria anônima, publicado em 1869, o qual se opunha a uma lei de anti-sodomia. Na última década do século XIX, este termo apareceu pela primeira vez em inglês, usada por Charles Gilbert Chaddock, tradutor de Psychopathia Sexualis, de R. Vom Krafft-Ebinge, desde então, tem sido amplamente utilizado na literatura contemporânea versando sobre o tema.
Não é possível precisar quando a homossexualidade teria surgido no mundo. O pesquisador americano Jeffrey Weeks (2001, p.65) afirma que “[...] antes do século XIX a homossexualidade existia, mas o/a homossexual não”.
Ou seja, no mundo antigo não existia a necessidade de distinguir o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, do relacionamento entre pessoas do sexo oposto. Para os povos antigos, o conceito de homossexualidade simplesmente não existia (SPENCER, 1999).
Alguns autores afirmam que a prática da sodomia, ato sexual praticado através do sexo anal, entre homens, existiu em todos os tipos de sociedade, em todos os tempos, e era sob diversas formas, aceita ou rejeitada, como parte dos costumes e dos hábitos sociais dessas sociedades. A sodomia era definida pelo ato, não pela pessoa que o praticasse, e não era considerada uma categoria identitária (GREEN, apud POSSAMAI 2008). Somente a partir do século XIX é que se desenvolveu uma categoria homossexual distintiva e uma identidade a ela associada (WEEKS, 2001). Na Antiguidade, não se dividia a humanidade em heterossexuais e homossexuais.
A palavra homossexual é originária do século XIX a partir do grego homo (igual) e do latim sexus. É importante enfatizar que na Grécia Antiga tal expressão inexistia.
O termo “homossexualismo” surgiu justamente quando se criou a dicotomia entre os direcionados eroticamente ao sexo oposto, então considerados “normais”, e os chamados “invertidos”, que só encontravam o prazer entre os representantes do mesmo sexo. Isso aconteceu no decorrer do século XIX, quando se deu o que Greensberg chamou de a “medicalização” da homossexualidade (GREENSBERG, 1988, p. 397-433 apud POSSAMAI), ou seja, quando o homoerotismo foi qualificado como uma doença.

Comportamento Homossexual na Antiguidade Clássica

Entre os Gregos e Romanos, era comum esse tipo de prática. Um personagem que pode nos servir de exemplo é Alexandre, o Grande, príncipe e soberano da Macedônia, célebre conquistador do mundo antigo. Alexandre, tornou-se rei aos 20 anos, na sequência do assassinato do seu pai se apaixonou pelo seu amigo de infância, Hefestion.
A vida e os relacionamentos do Rei, são retratados no filme, Alexandre (2004) do diretor Oliver Stone. Conquistador implacável, que aos 32 anos já havia se tornado comandante do maior império do mundo. Alexandre no filme tem vida conturbada com suas lutas e conquistas militares. Dentre outras questões, o filme trata de modo sutil da sexualidade de Alexandre. Na superprodução, o conquistador mantém um relacionamento muito íntimo com seu grande amigo de infância, Hefestion, além de serem sugeridas outras experiências homossexuais, tanto de Alexandre quanto de companheiros seus.
Na Grécia antiga, os meninos eram orientados para ter relação sexual com homens mais velhos. Geralmente eram educados por um preceptor, um professor (SOUSA, 2008). Inclusive o filme identifica Aristóteles como o professor de Alexandre.
Na cidade-estado de Atenas, os filósofos colocavam o envolvimento sexual com seus aprendizes como um importante instrumento pelo qual se estreitavam as afinidades afetivas e intelectuais de ambos. Entre os 12 e os 18 anos de idade, o aprendiz tinha relações com seu tutor, desde que ele e os pais do menino consentissem com tal ato.  Essa relação era chamada de Pederastia. O termo pederastia não pode ser traduzido por homossexualidade, pois para o ateniense desse período, esse vocábulo possuía um caráter simbólico muito mais amplo, que abrangia status, moral, poder (FOUCAULT apud SOUSA, 2008).  Segundo Sousa, o termo significava amor de um homem por um jovem que já havia passado pela puberdade, mas ainda não tinha atingido a maturidade. A pederastia tinha regras que normatizavam a prática.
A relação de pederastia incluía a questão do status social, nesse sentido o homem deveria ter ascendência intelectual, cultural e econômica sobre o adolescente. Afinal, ele complementaria a formação do jovem, iniciando-o nas artes do amor, no estudo da filosofia e da moral. Por tanto era visto como algo completamente separado da vida conjugal e sexual que os adultos tinham nos seus casamentos. Não era algo que entrava em conflito ou em contraste com o casamento. Esta relação de pederastia deveria acabar tão logo aparecesse no adolescente os primeiros sinais de virilidade. Permanecer nessa relação após o advento da virilidade era reprovável (SOUSA 2008).

O que a gente chama hoje de másculo, não no sentido biológico, mas no sentido cultural, mudou. E na cultura grega clássica, havia um grande espaço para práticas homossexuais, Alexandre (Oliver Stone, 2004), mostra não apenas a relação homossexual dos personagens   Alexandre e Heféstion.  O ambiente homo-erótico da maioria das festas do filme é perfeitamente verossímil. A homossexualidade masculina era absolutamente comum, um dado do convívio. Heféstion é apresentado por Oliver Stone como o único e verdadeiro amor de Alexandre, apesar de o rei casar-se com uma mulher, Roxana e de manter Bagoas, o eunuco de Dario, a seu lado. Heféstion é o grande amor, Roxana uma aliança política, Bagoas o objeto sexual.
O amor de Alexandre por Heféstion era tão verdadeiro que quando ele morre, Alexandre é tomado pelo desespero e preparou um funeral majestoso, dirigindo ele próprio a carruagem fúnebre. Mandou cortar as crinas dos cavalos e das mulas, bem como demolir as seteiras das muralhas das cidades, a fim de que parecesse que até as muralhas mostravam luto. Durante o filme as cenas de confiança, amor e carinho entre os dois são explícitas indicando um intenso relacionamento.

A homossexualidade feminina também teve seu lugar na Grécia Antiga. E, embora a mulher não ocupasse lugar de destaque e, por isso, há escassez de registros, é da antigüidade grega que provém o termo lésbica, para indicar a mulher homossexual. Lesbos é o nome da ilha onde viveu Safo, a famosa poetisa, que não escondia sua preferência sexual pelo mesmo sexo (GUIMARÃES, 2010).
Portanto, segundo os estudiosos é possível afirmar que na cultura grega, as práticas homossexuais, sobretudo pelo sexo masculino, eram aceitas socialmente e institucionalmente.

Entre os romanos, segundo Paul Veyne:
“Ser ativo era ser macho, qualquer que fosse o sexo do parceiro passivo; havia, pois, duas infâmias supremas: o macho que leva a fraqueza servil a ponto de colocar a boca a serviço do prazer de uma mulher e o homem livre que não se respeita e leva a passividade (impudicitia) ao ponto de se deixar possuir” (VEYNE, 1989, p. 197, apud POSSAMAI 2008).
Portanto, não havia uma reprovação ao homoerotismo na Roma antiga, mas sim à efeminação e ao papel passivo. A moral romana não condenava a pederastia, desde que fosse respeitada a virtude do homem romano. Para Veyne, a passividade era um dos efeitos da falta de virilidade, a qual era muito valorizada numa sociedade que não distinguia o comportamento homossexual do heterossexual, mas que prestava uma atenção exagerada a toda atitude que revelava a falta da virilidade, fosse nos gestos, na fala ou no vestuário (VEYNE apud POSSAMAI, 2008). Um comportamento caracterizado como feminino demonstraria, portanto, a fraqueza de um homem.
A princípio, em Roma, o homoerotismo era aceito quando se restringia às relações entre cidadãos, que deveriam representar o papel de ativo na relação sexual, e escravos, atuando como passivos. Essa relação de domínio através do sexo era favorecida pelo escravismo e pelo machismo.
Já na prática da Pederastia, com a chegada da puberdade o menino deveria abandonar o papel passivo. Porém, não há dúvida, que em Roma havia homens de todos os seguimentos sociais que preferiam a posição passiva durante a relação. Mas como ela era mal vista pela sociedade, competia manter as aparências.

Movimentos de libertação homossexual

Quando o comportamento homossexual tornou-se uma categoria identitária, no ínicio do século XIX, criou-se uma minoria que ficou sensível à discriminação social. No entanto, movimentos de libertação sexual não ficaram inertes em relação às restrições impostas a eles.

Foi por meio dos movimentos de liberação homossexual, que surgiu o termo gay como forma de apagar o teor psiquiátrico do termo homossexualismo, instaurando a luta política, sobretudo após o incidente de Stonewall em Nova York em 28 de junho de 1969, (SILVA apud POSSAMAI, 2008).
O incidente de Stonewall foi uma batida da polícia de Stonewall num bar de Nova York freqüentado por gays. Durante a batida policial, cansados das humilhações e perseguições, os homossexuais que estavam no bar resistiram à polícia, trancando- os dentro do bar e ateando fogo ao recinto. A batalha envolveu milhares de pessoas, durou toda a madrugada do dia 28 (POSSAMAI, 2008). Um ano após a rebelião, 10 mil gays, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam pelas ruas de Nova York, demonstrando que estavam dispostos a seguir lutando por seus direitos. Diante desse fato, o dia 28 de junho foi instituído o Dia Internacional do Orgulho Gay (OLIVEIRA apud POSSAMAI 2008).
A partir do final dos anos 60, o movimento gay buscava acabar com o sistema que marginaliza a homossexualidade. Os ativistas gays se articulavam com os movimentos de liberação dos direitos dos negros e da mulher então atuantes, e este movimento americano se expandiu para o mundo (TREVISAN apud POSSAMAI, 2008).

Teorização do Terceiro Sexo

Uma das primeiras teorias científicas sobre a homossexualidade é a idéia de “terceiro sexo”, desenvolvida na segunda metade do século XIX, em que o homossexual era visto como possuidor de uma alma feminina em um corpo masculino.
Lantéri-Laura, psiquiatra reconhecida pelas diversas pesquisas sobre a sexualidade, em seus estudos cita o jurista alemão Karl Heinrich Ulrichs, criador da primeira teoria científica a respeito da homossexualidade. Ulrichs considera a homossexualidade uma espécie de hermafroditismo da mente, cuja origem biológica e inata impossibilitaria uma cura ou mudança do objeto de paixão do homossexual (LANTÉRI–LAURA apud NUCC e RUSSO, 2009). O homossexual, portanto, deveria possuir uma alma feminina em um corpo masculino, uma vez que o desejo por homens seria essencial – e necessariamente – de ordem feminina.
O médico Magnus Hirschfeld, fundador da primeira organização de direitos homossexuais em 1897 na Alemanha, também teorizou sobre a homossexualidade a partir desta idéia de uma “inversão sexual”, em que os homossexuais seriam homens femininos, pertencentes ao “terceiro sexo”. Hirschfeld via na homossexualidade não uma patologia, mas uma variação natural do instinto sexual. (STEAKLEY apud NUCC e RUSSO, 2009).
No começo do século XX, Freud explicou o homossexualismo masculino a partir de uma longa e intensa ligação edipiana- apego sexual que liga o filho ao pai ou à mãe sempre ao sexo oposto.  Na adolescência, incapaz de renunciar a ela como objeto sexual, o rapaz identifica-se com a mãe, ‘transforma-se’ nela e passa a buscar elementos a que possa amar e de que possa cuidar da mesma forma como foi amado e cuidado.  (FREUD apud POSSAMAI 2008).
Nota-se como nesses argumentos as dimensões da orientação sexual e de gênero encontram–se interligadas.

Homossexualidade e Ciência

Durante anos, médicos e cientistas procuraram intervir de forma científica, física ou psicologicamente, na homossexualidade (TREVISAN apud POSSAMAI, 2008).  No século XIX, começaram as tentativas de explicar cientificamente este fenômeno. Alguns estudos e tratamentos ficaram bastante conhecidos, como por exemplo, a lobotomia.
Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, que chegou a ganhar o prêmio Nobel de Medicina de 1949, a lobotomia consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal. Na Suécia, três mil homossexuais foram lobotomizados.  Na Dinamarca, três mil e quinhentos – a última cirurgia foi em 1981. Nos Estados Unidos, cidadãos portadores de “disfunções sexuais” lobotomizados chegaram às dezenas de milhares. O tratamento médico era empregado porque a homossexualidade passou a ser vista como uma doença, uma espécie de defeito genético.

A preocupação científica com o homoerotismo começou no século 19. O inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (Inversão sexual). Como muitos da época, ele defendia a idéia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente consistiam de que a homossexualidade era uma doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. (RODRIGUES e LIMA, 2009).
Na atualidade existe uma serie de estudos que aponta a origem da homossexualidade para condição genética, como a cor dos olhos ou da pele. Um estudo muito conhecido anunciou a descoberta de um suposto “gene gay”. O Gene Xq 28 , estudo do cientista americano Dean Hammer, publicado em 1993 pela prestigiada revista “Science”. Hammer afirmava haver encontrado indícios da existência de um ou mais genes ligados à orientação sexual na região q28 do cromossomo X (ou Xq28). Esta tese coloca a homossexualidade não como opção de vida, mas sim como resultado de uma mutação genética.

As buscas de fatores hereditários foram inúteis. As diferentes hipóteses que foram desenvolvidas no sentido de propor explicações evolutivas que dariam conta da permanência deste padrão na espécie humana, não tiveram um resultado contundente (FREUD apud POSSAMAI, 2008).

Mudança de paradigma

A partir dos anos setenta surge uma perspectiva positiva: importantes Organizações ligadas à saúde e ciência têm um novo posicionamento em relação à homossexualidade.

1973- APA (Associação Psiquiátrica Americana) aprova a retirada da homossexualidade da lista de tratamentos mentais.
1985- O conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retira a homossexualidade da condição de desvio sexual.

1985 – O Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retira a homossexualidade da condição de desvio sexual.

Nos anos 90 – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV) onde são identificados por códigos todos os distúrbios mentais, que serve de orientador para classe médica, principalmente, para os psiquiatras, também retirou a homossexualidade da condição de distúrbio mental.

O Conselho Federal de Psicologia (CPF) divulgou nacionalmente uma resolução que estabelece normas para que os psicólogos contribuam, através de sua prática profissional, para acabar com as discriminações em relação à orientação sexual.
Sob o ponto de vista legal a homossexualidade não é classificada como doença no Brasil, sendo assim os psicólogos não deve colaborar com eventos e serviços que se proponham ao tratamento e cura de homossexuais. Quando procurados por homossexuais ou seus responsáveis para tratamento, os psicólogos não devem recusar o atendimento, mas sim aproveitar o momento para esclarecer que não se trata de doença, muito menos de desordem mental, motivo pelo qual não podem propor métodos de cura.

1993- A organização Mundial de Saúde (OMS) retira o termo HOMOSSEXUALISMO e adota o termo HOMOSSEXUALIDADE. Deste modo, passa a considerar a homossexualidade uma orientação sexual e não uma anomalia.

Conclusão:
Várias tentativas foram feitas neste século no sentido de explicar a homossexualidade, e até mesmo curá-la. Mas a pergunta realmente não é por que algumas pessoas são homossexuais, mas por que nossa sociedade se considera heterossexual. Pessoas nascidas em uma sociedade homossexual geralmente obedecem às mesmas leis e preceitos que seguem pessoas nascidas em uma sociedade heterossexual. A maioria das pessoas se sente confortável com as condições que a sociedade impõe. Mas há aqueles que se sentem oprimidos e vivem uma experiência de vida completamente antinatural. Assim, o problema não está nestas pessoas, mas nas restrições impiedosas que a sociedade impõe e que deveriam ser consideradas como atentatórias à natureza humana.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TESON, Nestor Eduardo. Fenomenologia da homossexualidade masculina.   São Paulo:  EDICON, 1989.

SPENCER, Colin. Homossexualidade uma história. Rio de Janeiro, São Paulo: Recor, 1999

WEEKS, Jeffrey. O Corpo e a Sexualidade. In: O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

POSSAMAI, Paulo César. O Homoerotismo na Roma Antiga. 2008. In: http://www.cchla.ufrn.br/humanidades/ARTIGOS/GT11/Homoerotismo%20em%20Roma.docx, acesso: 02/01/2010

NUCC, Marina Fisher; RUSSO, Jane Araújo. O terceiro sexo revisitado: a homossexualidade no Archives of Sexual Behavior. Revista Physis vol.19 no.1 Rio de Janeiro  2009

VIANA, Fabrício. O que é a homossexualidade? In: http://www.homossexualidade.net/o-que-e-a-homossexualidade/, acesso em 18/12/2009

RODRIGUES, Humberto; LIMA, Cláudia de Castro. Homossexualidade na Antiguidade. In: http://historia.abril.com.br/comportamento/vale-tudo-homossexualidade-antiguidade-435906.shtml, acesso 11/01/2010

GUIMARÃES, Luiz Augusto de Freitas. Sobre a homossexualidade na Grécia Antiga. In:  http://www.cav-templarios.hpg.ig.com.br/homossexualidade_na_grecia.htm, acesso em 12/01/2010

SOUSA, Luana Neres de. A pederastia em Atenas no período clássico: re- lendo as obras de Platão e Aristófanes. 2008

Filmografia:
ALEXANDRE. EUA, 2004. Oliver Stone. (176 min)





PATRIOTISMO E TERRITÓRIO: Análise fílmica e teórica dos conflitos que permeiam Lemon Tree

16 02 2010

Introdução

O objetivo do presente trabalho é traçar um discurso de como o sentimento patriótico emerge nas relações das disputas por territórios. Em primeiro momento, articularemos essa temática com cogitações acerca da questão específica do sentimento que junta força do amor próprio, sendo este o patriotismo, buscando retratar as maneiras de como o aplicamos dentro da nossa nação, e quais as razões que eleva o nosso sentimento de pertencimento a tal nacionalidade. Em segundo momento buscaremos conceituar em curto período, o caráter territorial, qual a forma ou maneira que é tratado, infiltrando o mesmo como um elemento formador de uma nação.

Sendo estas as análises iniciais, procurarei por fim, estabelecer uma relação desses temas com as tensões e conflitos que são estabelecidos no filme Lemon Tree de Eran Riklis (2008), tendo como dilema central a sensação de pertencimento a algo, que no seu caso, é o território.

Patriotismo: sentimento que reforça amor próprio

Ao falarmos de patriotismo logo nos lembramos do sentimento amor, o qual exerce papel fundamental como produto de ligação do ser patriota.

Segundo George Kateb (2008), o patriotismo é o amor a um país. Mas o autor questiona que tipo de amor seria esse. Alguns defensores do patriotismo, que desejam que amemos nosso país, utilizam termos como “pátria mãe”. O uso desse termo indica que devemos amar nosso país como amamos nossos pais. Será que eles desejam nos dizer que um país é como uma pessoa e que deve ser amado como tal? Obviamente, um país não é uma pessoa. A associação deveria ser apenas uma metáfora. Quando reconhecemos a metáfora, vemos que a comparação de um país a uma pessoa é apenas um ato de imaginação.

Na história, a legislação romana é um bom exemplo desse feito, em que há uma troca de amor entre os cidadãos, havendo também um respeito pela sua nacionalidade, elevando-se a vontade e coragem de defender os problemas existentes em todos os âmbitos de sua nação e garantindo uma melhor vivência conjuntural, que conseqüentemente eleva o sentimento de pertencimento a sua nação.

Em suma, que a pátria se mostre como uma “mãe comum”, querida pelos seus filhos – os cidadãos –, sendo que quando eles usufruem as vantagens oferecidas por ela, seu sentimento de pertencimento aumenta, de tal maneira que possa se sentir em casa, respeitando as leis como uma garantia da liberdade comum. Garantindo a manutenção dos bons costumes, do respeito às leis, do amor à pátria e do vigor cada vez maior da vontade geral. (KATEB, 2008)

Segundo Luiz Felipe Netto (2009) os cidadãos devem, para sentirem amor pela pátria, devotar-lhe um tipo de relação afetiva semelhante ao sentimento materno, ela deve transformar-se em uma espécie de mãe comum.

Já que esse sentimento oferecido para pátria se transforma em uma espécie de mãe comum, ela deve, assim como a nossa mãe biológica, oferecer algum tipo de vantagem ou benefício, seja ela garantir à segurança civil, os bens, a vida e a liberdade de cada um.

Alguns se perguntam se este sentimento deve reinar apenas no meio em que você se estabelece. De certo modo essa concepção de abranger o seu sentimento patriota por toda terra se enfraquece. É necessário limitar o interesse para tornar-se ativo de determinada pátria. Exemplo:         Um homem que vive na Europa não se compadece, segundo esta visão, com as calamidades sofridas por um asiático, pois o seu sentimento se enfraquece e se apaga com o tempo na proporção do aumento da distância entre a sua morada e a realidade externa.

A questão de sentimento pertencente a tal território, corrente da imigração, a identificação com tal cultura, os costumes, a língua falada, o espaço físico, dentre outros aspectos, são sentimentos que fortalecem o ser, a garantir que pertence a tal nação e que o fará um defensor dessa pátria.

Sendo assim, um ser que defende a sua pátria, é um sujeito que designa em si o amor. O amor e a paixão são os sentimentos que impulsionam o homem a servir a pátria com dedicação absoluta. Para Rousseau, “esse sentimento suave e vivo que junta à força do amor-próprio a toda beleza da virtude, dá-lhe uma energia que a torna a mais heróica de todas as paixões”. (ROUSSEAU, 1964, apud ANDRADE, 2009, p 194)

Para consolidar mais esse pensamento de patriotismo, que emerge todas as necessidades do querer ser e fazer, é necessário que haja uma compreensão de como a nação se estabelece dentro do mundo e qual seu sentido.

Helio Jaguaribe diz que:

“Nação em sentido socioantro-pológico é uma comunidade dotada de cultura própria, obedecendo a uma direção comum e, com raras exceções, habitando o mesmo território.” (JAGUARIBE, 2008, p 275)

Porém é cabível dizer que a nação também abrange todas as causas e efeitos advindos dos cidadãos, que por sua vez ocupa algum cargo na sociedade, seja ela na busca religiosa ou política. É uma comunidade de indivíduos vincula-dos social e economicamente, que compartilham certo território, que reconhecem a existência de um passado comum, ainda que divirjam sobre aspectos desse passado; que têm uma visão de futuro em comum; e que acreditam que este futuro será melhor se mantiverem unidos.

A nação surge com o intuito de unificar as forças existentes dentro da comunidade, estabelecendo um laço de troca dentre as classes, já que a mesma possui uma organização social e um sistema político, que é o Estado. Sendo assim, o ser nacionalista tende a se apoiar e defender a sua nação em todos os aspectos. (JAGUARIBE, 2008, p 278)

Território: elemento formador de uma nação

Um dos autores pioneiros na abordagem do território foi Claude Raffestin (1993), que na sua obra, trata do caráter político do território, bem como a sua compreensão sobre o conceito de espaço geográfico, pois o entende como substrato, um lugar, preexistente ao território.

Nas palavras do autor:

“É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. O território se forma a partir do espaço, é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível.” (RAFFESTIN, 1993, p. 143).

Dentro da concepção enfati-zada pelo autor, o território é tratado como um espaço que se forma a partir das ações de quem o compõe, e também como um espaço que estabelece formas de caráter político-administrativa, isso remete a construção de um território nacional, espaço físico onde se localiza uma nação; um espaço onde se delimita uma ordem jurídica e política; um espaço medido e marcado pela projeção do trabalho humano com suas linhas, limites e fronteiras. Segundo o mesmo autor, ao se apropriar de um espaço, o indivíduo territorializa o espaço.

Ele analisa que a construção do território revela relações marcadas pelo poder. Assim, faz-se necessário enfatizar uma categoria essencial para a compreensão do território, que é o poder exercido por pessoas ou grupos sem o qual não se define o território. Poder e território, apesar da autonomia de cada um, vão ser enfocados conjuntamente para a consolidação do conceito de território.

Lemon Tree e seus conflitos sociais e políticos

Diante da concepção de patriotismo e território defendida acima, é cabível uma análise crítica do filme Lemon Tree de Eran Riklis (2008), obtendo uma relação da sensação de patriotismo com a disputa de território.

O enredo do filme circula os conflitos entre os Israelenses e Palestinos. A luta se dá, quando o Ministro de Segurança Israelense se muda para o lado de uma casa, cujo quintal é uma plantação de limões, cultivada por uma palestina. Porém o ministro vê isso como ameaça, já que a plantação é considerada um esconderijo em potencial para terroristas, e para garantir a sua segurança, o Serviço Secreto quer derrubar a plantação. Nessa situação a vítima corre o risco de perder seu território habitual. Mas a luta pela manutenção de sua propriedade é grande.

A bandeira defendida por Lemon Tree é da estupidez dos conflitos territoriais, especialmente entre Israelenses e Palestinos, partindo de um elemento tão banal quanto uma plantação de limoeiros. O conflito chega a proporções inimagináveis.

Trazendo essa questão para um contexto geral, percebe-se que, de acordo com os estudos de Octavio Ianne (2007) entre raças e povos, o deslocamento de indivíduos, famílias e coletividades para outros lugares, causam mudanças mais ou menos drásticas nas condições de vida e trabalho, em padrões e valores socioculturais para ambas as nações, principalmente aquela que está sendo invadida. Mesclam-se diversidades e desigualdades de todos os tipos, compreendendo inclusive as religiosas e lingüísticas, mas sempre envolvendo alguma forma de racialização ou políticas de raças nas relações sociais.

São realidades sociais às vezes extremamente complexas, produzidas ao longo de migrações. “Hoje, por todos os lados a etnicidade é a causa da desagregação de nações.” (Em ARTHUR M. Shlesingner Jr., apud Ianne, p 152). Então as tensões étnicas perturbam a sociedade, que acaba entrando em conflitos, causando divisões de nações. Ainda assim, a migração de indivíduos relativamente não aceitos em territórios contrários aos seus, pode se diversificar com as experiências e vivências, tornando-se o meio propício a uma boa convivência entre as raças. Aspecto que não se mostra consistente no filme, já que os ideais de ambos – de defender sua origem, sem dar espaço para introdução de novas imposições contrárias às suas – permanecem firmes.

Considerações finais

Sendo assim, o patriotismo se desenvolve de um sentimento chamado amor, seja este atribuído ao seu país, região, ou algum bem particular ou público. Ainda assim este sentimento pode levar as pessoas a agirem de acordo com regras ou leis que são estipuladas pelo seu estado, sendo que as lutas pelos direitos humanos, tal como o território, são relações marcadas pelas divisões de poderes presente na nação. E para que haja uma harmonia com esses poderes, é preciso que articulem os interesses individuais, assim como também os coletivos, e que acima de tudo se desenvolva um sentimento de amor e igualdade entre os próprios indivíduos. Estas sugestões podem influenciar no bom convívio entre indivíduos de diferentes nações e ideais, sem que seja preciso estabelecer regras severas e possíveis conflitos.

Referências Bibliográficas

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

IANNI, Octavio. A era do globalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007

KATEB, George. Do patriostismo. Artigo publicado no site http://www.ordemlivre.org/node/217

(Acesso em 15 de Janeiro, 2010)

ANDRADE, Luiz Felipe Netto. Rousseau e a educação pública: uma solução?. Artigo publicado no site http://www.principios.cchla.ufrn.br/25P-187-202.pdf

(Acesso em 17 de Janeiro, 2010)

JAGUARIBE, Helio. Nação e nacionalismo no século XXI. Artigo publicado no site http://www.scielo.br/pdf/ea/v22n62/a18v2262.pdf

(Acesso em 15 de Janeiro, 2010)





Homossexualidade e Religião – Uma abordagem histórica

6 02 2010

INTRODUÇÃO

A homossexualidade caracteriza-se pela atração sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo. Essa denominação é uma oposição a heterossexualidade ou a atração sexual e afetiva por pessoas do sexo oposto. A partir das últimas décadas do século XX, tornou-se comum o uso do termo gay para denominar homens e mulheres homossexuais. Há, porém, o uso do termo lesbianismo ao referenciar a homossexualidade feminina, termo derivado da palavra Lesbos, ilha grega onde o amor entre mulheres era celebrado pela poetisa Safo.

A pós-modernidade é marcada por constantes discursos que priorizam a individualidade do sujeito e qualificam suas ações como produtos da subjetividade de uma auto-identificação cultural e social. Entretanto, ainda é possível perceber que as estruturas políticas, organizadas socialmente, tendem a controlar e a conduzir os indivíduos, através da elaboração de “práticas sociais baseadas na heteronormatividade” constituídas “em processos capazes da construção de subordinação de outras práticas sexuais e sociais” (PRADO, 2008, p. 13).

Nesse contexto, a homossexualidade é entendida como uma transgressão à “normalidade”, e os sujeitos transgressores passam a ser marcados como “diferentes e desviantes” (LOURO, 2004, p. 87). Esse “novo” sujeito é estigmatizado pela sociedade, que o vê como alguém passível de cura, de salvação e de re-educação. Nessa lógica, os gays e as lésbicas reconhecem a obrigatoriedade de manterem-se escondidas em um “armário”; assunto que requer novas discussões, pois, como bem pontuou Guacira L. Louro: “Reconhecer-se nessa identidade é questão pessoal e política. O dilema entre ‘assumir-se’ ou ‘permanecer enrustido’ (no armário – closet) passa a ser considerado um divisor fundamental e um elemento indispensável para a comunidade” (LOURO, 2004, p. 32).

Prevalecendo-se da “autoridade divina”, as religiões exercem grande impacto na elaboração de princípios “morais” nas sociedades ocidentais. Luiz Mott, em suas pesquisas sobre a presença da homossexualidade no Brasil colonial, encontra a seguinte citação: “Sobre todos os pecados, bem parece ser o mais torpe, sujo e desonesto, o pecado da sodomia, e não é achado outro tão aborrecido ante Deus e o mundo, como ele [...]” (LIVRO V apud MOTT, 1988, p. 22).

Somente através da História, buscando evidências das diferentes práticas sexuais em diferentes povos, é que se encontrarão respostas que legitimem a identidade homossexual como uma das diversas possibilidades no campo da sexualidade humana.

PRÉ-HISTÓRIA

Apesar de ter sido apenas a partir de meados do século XX que esse novo “tipo” de indivíduo sexual, o gay e a lésbica, passou a frequentar com maior visibilidade os ambientes comuns das sociedades ocidentais, não é correto afirmar que tal prática esteja limitada em um determinado espaço temporal. Recentes pesquisas antropológicas, segundo Spencer:

[...] sugerem que as tribos que primeiro colonizaram a Melanésia, cerca de 10.000 anos atrás, exercitavam algumas formas de homossexualismo ritual (SPENCER, 1999, p. 19).

Tratava-se de rituais de iniciação entre homens adultos e meninos; rituais que figuravam na sociedade com bastante significação cultural.

Em duas tribos, Marind e Kiman, após a infância, os meninos eram separados das mães e passavam a viver na casa dos homens com o pai. Aos primeiros sinais de puberdade, o tio materno era responsável por penetrar o sobrinho, tornando-o forte através da inseminação do esperma. Essa fase durava cerca de três anos.

Ainda que não pareça, a prática desse e de outros rituais não representava apenas uma forma de sodomização ou de pederastia; acreditava-se que poderia haver uma espécie de transformação física e espiritual naqueles que se submetiam a essas práticas.

Numa outra tribo, a Sambia, havia uma total reverência ao sêmen. Eles acreditavam que o sêmen não era produzido naturalmente, e que os machos só chegariam à puberdade se fossem portadores desse valioso líquido fecundante. Deste modo, os meninos, a partir dos sete anos, eram levados para viver na casa dos homens onde eram submetidos à prática da felação (sexo oral), quando engoliam o sêmen dos homens adultos. Após um determinado tempo, os meninos passavam a ensinar a felação aos novos iniciados.

Os Sambia davam grande importância à quantidade e à qualidade do sêmen que um menino era capaz de produzir. Além disso, era inadmissível a troca de papéis entre os parceiros sexuais: o menino mais jovem sempre exercia o papel passivo, e comumente, era-lhe atribuído um nome ou título feminino. Pouco se sabe a respeito da prática homossexual feminina dessas tribos. (SPENCER, 1999).

Esses rituais ocupam papel definidor no modo de vida dessas tribos. A homossexualidade não é pensada, mas realizada; e não há nada que a desvalorize.

ANTIGUIDADE

Nas civilizações antigas, o mais importante numa relação sexual era o seu poder reprodutivo. Os casamentos, na Mesopotâmia, objetivavam a procriação. O papel das mulheres, nessa sociedade, era secundário em relação ao dos homens; elas “constituíam valiosas peças de propriedade” (SPENCER, 1999, p. 31). Não há, nas leis dessa civilização, nenhuma proibição aos atos homossexuais, como também, nenhuma menção a essa prática sexual.

No Egito, havia a prática da sodomia: ao vencerem uma guerra, os egípcios sodomizavam seus inimigos, pois consideravam que o papel passivo de um homem adulto numa relação sexual era um ato de extremo insulto. Não é conhecido se a homossexualidade era, para os egípcios, positiva ou negativa; apesar da bissexualidade dos homens ser aceita normalmente. Mas assim como para a sociedade da Mesopotâmia, o único problema da homossexualidade estava relacionado ao “tipo” e ao “status” do parceiro. Para eles, “um homem adulto submetido à relação anal perdia a masculinidade” (SPENCER, 1999, p. 34).

É também na Grécia que a pederastia será atribuída de grande importância social. A sexualidade era pensada e praticada de formas distintas nas diversas cidades gregas.

Em Creta, havia uma espécie de iniciação com a finalidade de preparar os meninos à vida adulta. Pelo costume, o menino escolhido pelo adulto era levado à floresta onde conviviam dois meses. Nesse período era-lhe ensinada a arte da caça e do amor, quando o adulto sodomizava o menino. (SPENCER, 1999, p. 41).

Na ilha de Lesbos, as poesias de Safo comumente celebravam o amor entre as mulheres. Aliás, são as poesias gregas, fontes de relatos nos quais a homossexualidade era aceita e vista como parte integrante da vida social.

Segundo Spencer:

A aceitação social da bissexualidade como a mais natural das respostas estava inserida profundamente na consciência da sociedade grega, do mesmo modo que a ideia da heterossexualidade é na nossa sociedade a única considerada natural e normal (SPENCER, 1999, p. 48).

Em contraposição a essa liberdade sexual experimentada pela Grécia, a sociedade dos hebreus era regida por severas leis, de caráter religioso, que regulamentavam seus costumes sociais.

O sexo dentro do casamento é aprovado e valorizado se para a procriação. As mulheres eram propriedades dos homens e suas obrigações domésticas possuíam grande significado religioso. Aliás, muito dos costumes hebraicos configuravam-se como obrigações religiosas.

Para o povo hebreu, foi Deus quem criou o mundo e tudo o que nele há, inclusive, o homem e a mulher; portanto, instituiu a heterossexualidade como a mais pura, normal e natural expressão da sexualidade humana.

Em Levítico 18:22, os atos homossexuais são descritos como  “abominação” perante Deus: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”, escreveu o profeta Moisés.

É na Bíblia, também, que se encontra uma das histórias mais utilizadas para reforçar a ideia de que a homossexualidade é um “pecado”; trata-se do conto sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, no qual, vários homens tentaram sodomizar dois “anjos” que estavam na casa de Ló, os quais tinham a missão de alertá-lo sobre a destruição das cidades. O termo sodomia, prática do sexo anal, advém dessa história bíblica.

Mas são os escritos de Paulo de Tarso que apontam o caráter antinatural da relação homossexual. Paulo escreve aos romanos a seguinte declaração:

Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contacto natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro (Romanos 1:26 e 27).

Para a maioria dos teólogos, esse texto faz referência ao lesbianismo e à homossexualidade masculina. É através dele que muitos tentam provar a não-naturalidade dos atos homossexuais. Porém,

Enquanto alguns assinalam o caráter desviante, a anormalidade ou a inferioridade do homossexual, outros proclamam sua normalidade e naturalidade [...] (LOURO, 2004, p. 30).

E é com o surgimento, cada vez mais significativo, de novos discursos sobre identidade, que há um maior acesso a essas novas categorias sociais, ainda que esses novos sujeitos sejam “rotulados (e isolados) como ‘minorias’” (LOURO, 2004, p. 87).

Mesmo hoje, os textos sagrados constituem o alicerce do pensamento das sociedades ocidentais. Estas se apropriaram da “autoridade divina” para estabelecer parâmetros que regulem a moral dos indivíduos, criando, desta forma, solo fértil para o exercício da homofobia (preconceito e ódio aos homossexuais). Além de provocar danos irreparáveis na vida daqueles que acreditam ser uma “abominação” perante Deus.

LATTER DAYS

Latter Days é um longa-metragem que apresenta os conflitos entre os princípios religiosos, em particular de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e a homossexualidade.

No filme, o protagonista é um jovem missionário mórmon, Aaron, que vai à cidade de Los Angeles com três amigos para difundir a fé da igreja. Eles se hospedam em um apartamento vizinho ao do jovem Christian, assumidamente gay, aspirante a ator, e que trabalha como garçom em um restaurante da cidade.

Esses dois mundos irão se encontrar, e provocarão grandes mudanças na vida dos dois jovens. Aaron se torna alvo de uma aposta de Christian com uma amiga, na qual a finalidade era seduzir um dos missionários.  Descobre-se então que Aaron é um gay “enrustido” que faz o possível para cumprir os preceitos religiosos, e não ceder à sua própria vontade.

Considerado um filme gay romântico, Latter Days gerou polêmica por ser o primeiro filme a mostrar os conflitos entre os princípios da igreja mórmon e a homossexualidade.

Sua primeira exibição foi no Filadélfia Gay & Lesbian International Film Festival, em 10 de julho de 2003. Além de compor a programação de muitos outros festivais, principalmente de temática gay, em diversos países.

CONCLUSÃO

A homossexualidade está presente na história da humanidade desde o seu princípio. As relações afetivas e sexuais com pessoas do mesmo sexo configuravam, nas tribos da Melanésia, uma espécie de iniciação, “um rito de passagem para o jovem na sua jornada em direção ao mundo adulto” (SPENCER, 1999, p. 13). Nas civilizações antigas, exceto para os hebreus, essas experiências sexuais ocupavam lugar de destaque nos diferentes contextos sociais.

Mas foi na civilização dos hebreus que a religião passou a doutrinar e condenar as práticas sexuais que divergiam da heterossexualidade.  Com severas regras de conduta moral, os hebreus constituíram uma das sociedades mais homofóbicas da antiguidade.

Ainda hoje, essa “normatização” exerce bastante influência na maioria das sociedades do mundo todo. Fato que obriga a segregação de sujeitos, indivíduos que recebem a marca de doentes, pecadores, anormais, abomináveis, antinaturais, entre outras. Esses homens e mulheres, segundo Guacira L. Louro, que contestam a sexualidade legitimada, se arriscam, expondo-se a todas as formas de violência e rejeição social.

Talvez, a despeito das grandes transformações que ainda ocorrerão na história da humanidade, os homossexuais continuem a se perguntar:

Como pode um ato de impetuoso prazer ser essa coisa terrível, demoníaca, que ameaça o amor a Deus e a sociedade civilizada? (SPENCER, 1999, p. 386).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, João Ferreira de. In: Bíblia Online.  Disponível em: http://www.bibliaonline.com.br/ra/. Acesso em: 10 de dezembro de 2009;

LATTER DAYS (filme). C. Jay Cox, 2003. 107min. son. color. Estados Unidos;

LOURO, Guacira Lopes. O corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004;

MOTT, Luiz R. B. Escravidão, homossexualidade e demonologia. São Paulo: Ícone, 1988;

OLIVEIRA , Rubens. In: BLOG a sétima visão. Disponível em: http://nitrog.pop.com.br/cultura_art.php?id=MjYy. Acesso em: 08 de janeiro de 2010;

PRADO, Marco Aurélio Máximo, MACHADO, Frederico Viana. Preconceito contra homossexualidades: a hierarquia da invisibilidade. São Paulo: Cortez, 2008. (Preconceitos; 5);

SPENCER, Colin. Trad. Rubem Mauro Machado. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro: Record, 1999. (Contraluz; 7)





O PATRIOTISMO NA CINEMATOGRAFIA BRASILEIRA

5 02 2010

A questão do mito brasileiro: influências do conflito arte e estado ou uma questão estética

Podemos dizer que o Brasil possui uma cinematografia própria desde antes da criação do Estúdio Vera Cruz, no final da década de 40 do século passado. Devido à uma grande concorrência com a cadeia produtiva Hollywoodiana que dominava a maior parte do mercado, empresários do entretenimento investiram em uma cadeia produtiva nacional, mesmo tendo ainda que distribuir através de empresas americanas. Nesse período, alguns mitos nacionais já se faziam conhecidos na Europa e nos Estados Unidos, revelados por um cinema antecessor, de linguagem bem nacionalista. Esse cinema, conhecido como chanchada brasileira, percorreu o mundo em comédias e musicais que levaram ao sucesso, vedetes do teatro de revista e cantoras de rádio, tendo Carmem Miranda como ícone de representação da mulher brasileira. A personagem de Carmem era uma mistura de baiana do acarajé com mulata brejeira, de vendedora de bananas à mulher sensual. Carmem Miranda, uma portuguesa de nascença, acabou contratada por Hollywood e serviu como pano de fundo para as relações políticas entre as Américas no pós guerra, contracenando até com um personagem animado criado especialmente por Walt Disney, o Zé Carioca, para representar um outro mito da identidade brasileira, o malandro.(XAVIER, 2001) Zé Carioca trazia mais entretenimento para a temática do cinema comercial americano. A questão do mito brasileiro representou uma leitura caricatural no cinema produzido no Brasil até o fechamento do estúdio Vera Cruz. Ainda durante a existência da companhia Vera Cruz, a temática recorrente de investimento dos estúdios sempre trazia esteriótipos nacionais. O mais famoso, O cangaceiro, de Lima Barreto (1953), ganhou prêmio em Cannes como “melhor filme de aventura”.

Foi nesse período da história que uma crítica de cinema surgiu, principalmente na França, analisando criteriosamente o que estava sendo produzido e construindo teorias sobre técnica, linguagem e estilo. O cineclubismo fazia da cadeia produtiva cinematográfica, um alvo para suas análises e a questão política trazida durante o neo-realismo do cinema Italiano e na Nouvelle Vague francesa influenciaria fortemente o que seria produzido no Brasil nos anos seguintes, opondo-se às chanchadas e ao cinema comercial nos moldes americanos (MANEVY, 2006).

O cinema moderno brasileiro deixou o interesse comercial verificado no período anterior, das primeiras produções e da Vera Cruz para a construção de uma estética nova. Defendido por seus autores, o cinema novo, como o período ficou conhecido na primeira fase, lançou uma nova proposta para a produção realizada em um momento que antecedia a ditadura militar (VIANY, 1999). O diálogo do cinema com a literatura, a música e o teatro representou nesse período uma conexão profunda com a discussão sobre identidade, pois trouxe para o debate questões sobre a formação social do Brasil (XAVIER, 2001) . Podemos verificar então, numa primeira impressão, que o mito brasileiro deixa de ser foco industrial de um nacionalismo comercial, para fonte de pesquisa de uma nova estética, inclusive política. Porém, a primeira fase já reconhecida internacionalmente por utilizar uma temática nacional, marcaria o cinema brasileiro como um cinema nacionalista. Considerando que a linguagem do cinema, sendo uma linguagem universal por tratar os assuntos de forma que podem ser compreendidos em toda parte do globo, independente da língua utilizada, qual seria a intenção dessa característica do cinema nacional?

Surgem então,questões chaves que vão interessar à análise da temática patriótica, do que viria a ser produzido pelas vanguardas do cinema moderno, inclusive durante os anos de chumbo da história nacional: Falar do Brasil e de seus mitos seria uma questão política ou estética e conceitual? Ou não, continuaria sendo uma forma de produção comercial?

1.O Patriotismo: nação e território – sentimento de pertencimento

A construção de um sentimento de pertencimento brasileiro, de nação e território, remonta o período da história em que a disputa pelo controle do país também se nacionalizava, via discussões abolicionistas e sobre a proclamação da República.

A Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo em 1922, expressava o desejo da classe de firmar uma linguagem nacional no modus operandi artístico. A busca de uma identidade coletiva, de uma base para a construção da nação, seria uma tarefa que iria perseguir a geração intelectual a partir da Primeira República (1889-1930) (CARVALHO, 1990).

A definição de alguns mitos históricos, viriam reforçar a idéia de independência e autonomia da nação para a formação de uma Pátria. Períodos históricos como a República e a Abolição, por exemplo, se tornariam mitos que criariam no imaginário popular nacional, a sensação de integração com as transformações sociais. A formação política dos brasileiros ainda sofreria influências ultranacionalistas do fascismo italiano e culminaria na política nacionalista da era Vargas.

Entre a virada do século XIX para o século XX até a segunda guerra mundial, os brasileiros viviam um momento de aproximação com as idéias de democracia, república, comunismo e socialismo. Sendo acostumados a considerar sua individualidade por meio das relações com o corpo do Estado, numa relação bem definida por Rousseu (1990) se percebe como parte desse corpo, se sente membro da pátria, e a ama como a si mesmo, se dispondo perigosamente à todos os vícios (ROUSSEAU, 1990).

Portanto, estaria o brasileiro interessado em fazer arte pela pátria ou falar de si seria apenas uma questão estética? Ao menos, no primeiro momento da produção cinematográfica brasileira, a influência do mercado hollywoodiano era visível em algumas produções, inclusive em O cangaceiro de Lima Barreto. Autor fixador do comportamento do povo brasileiro, que dialogava com a maneira de falar social (VIANY, 1999), mas que localizava seu sentimento de pertencimento em território americano.

2.O primeiro cinema brasileiro: a venda do nacionalismo

…O cangaceiro estava destinado ao sucesso: no valor da moeda, custou a fortuna de dez milhões de cruzeiros, hoje orçamento mínimo para um filme.

Glauber Rocha (ROCHA, 2003)

O estúdio da Vera Cruz, criado no final da década de 40 do século passado, fora uma tentativa comercial de concorrência com a indústria do cinema mundial. O italiano Franco Zampari investiu em um grande estrutura, na cidade de São Bernardo do campo, e em dezenas de filmes, que em poucos anos o levaram à falência. Para manter toda a estrutura da cadeia produtiva da Vera Cruz, que envolvia em sua maioria profissionais italianos e aprendizes brasileiros, Zampari apela para um pedido de subsídio público. Sobre esse fato, Glauber Rocha relata em seu livro Revisão crítica do cinema brasileiro:

Em 1959 assisti, numa deserta sala deste império hoje abandonado, um significativo documentário de apelo aos poderes estaduais e federais para que não deixassem morrer a Vera Cruz…um discurso final alertava o país, era como se a Petrobras estivesse falindo!

(ROCHA,2003 p.72)

O apogeu do sucesso do estúdio Vera Cruz ocorreu com os filmes Sinhá Moça (1953) e O cangaceiro (1953). Filmes que firmaram contrato de distribuição com a Columbia Pictures e que se tornaram espolio desta gigante americana do cinema, que no final foi quem mais lucrou com a falência da produtora brasileira.

O cangaceiro, fica em primeiro lugar nas bilheterias, de todos os cinemas do país e traz para o Brasil, em 1954, uma premiação do festival de Cannes, porém como melhor filme na categoria “filme de aventura” e um na categoria música, espaços especialmente dedicados aos filmes do gênero western. Estes, perderam apenas naquele ano, para um produção não-americana. Apesar de O cangaceiro tratar do nordeste da época de Lampião, remetendo ao protagonista capitão Galdino à figura do mito sergipano e lançando com sucesso a música múle rendeira de Zé do Norte, seca e mística do vaqueiro soam artificiais, pois a lógica anárquica e de confronto, do povo com a máquina latifundiária não é representada, apenas confrontos no estilo for west. Sobre essa influência Viany retrata:

Quando ainda andava com seu primeiro roteiro de longa-metragem debaixo do braço(…)Lima Barreto confessou-me, certa vez, que O cangaceiro tivera como principal inspiração o filme norte-americano Viva Villa!, contrafação hollywoodiana da carreira do caudilho mexicano Pancho Villa. (Viany, p. 131)

Pela primeira vez, uma obra cinematográfica brasileira seria exibida com muito sucesso em todo o mundo. No Brasil, o filme faria tanto sucesso, que simpatizantes do fascismo o utilizariam como exemplo de uma arte para as massas. A propaganda era tamanha que o público criaria expectativas de um surgimento da Hollywood brasileira, e principalmente, paulista. Rodado em São Paulo, o cenário das externas não convencem àqueles que conheciam de perto o sertão real.

Depois do nordestern brasileiro (VIANY, 1999) Lima Barreto ainda rodaria O sertanejo (1956), fracasso de público, mas que tornaria famosa, a frase: o sertanejo é antes de tudo, um forte. Lima Barreto faliu junto com a Vera Cruz e posteriormente as honras e o lucro de suas obras ficaram com a Columbia Pictures.

3.Patriotismo ou nacionalismo: semelhanças e aproximações – Garrincha – alegria do Povo (1962, Joaquim Pedro)

Durante o Festival de Cinema Latino-Americano de 1961, o jovem cinéfilo e documentarista Joaquim Pedro, escreve uma carta panfletária sobre o cenário das produções, tanto argentinas quanto brasileiras, traçando rigorosas críticas sobre os filmes nacionais que estavam sendo exibidos. Pré-anunciando um manifesto do cinema novo, sugerindo a prática da “câmera na mão e uma idéia na cabeça”, junta-se em um novo grupo que se opõe à produção comercial anterior dos grandes estúdios: Atlântida, Cinédia e Vera Cruz.

Com o filme Couro de gato (1960), Joaquim Pedro ganha o Festival Latino-Americano de 1962 e parte para um pesquisa engajada entre o realismo crítico, cinema verdade e cinema de autor. Com fortes influências de fotógrafos da época, conhece o fotógrafo Luiz Carlos Barreto que tem grande admiração pela estética de Joaquim e por isso lhe propõe a direção de um documentário sobre o futebol.

As características estilísticas do realismo italiano e a política de autor francesa influenciam a composição do grupo de origem do Cinema Novo no Brasil. O filme não tem proposta comercial, como seria nato à um documentário. Porém, Garrinha, alegria do povo traz todas as provas de que seria um filme de sucesso, se tornando uma febre na grande maioria das família brasileiras do período, que vão ao cinema pela primeira vez para assistir à um cinema documental. Seria o mito do futebol (como o mito do samba) o motivo de tanto interesse popular? Ou porque trazia Pelé e Garrincha na trama, e o desejo de uma copa no Brasil ( já anunciado como sede da copa de 1970)? Glauber Rocha diz:

… que o motivo do sucesso era a reflexividade que Joaquim Pedro constrói junto à equipe.

(ROCHA, 2003 p.155)

A equipe do filme, que tem Luiz Carlos Barreto como um precursor de grandes produções do cinema no período em Assalto ao trem pagador (1963) e vidas Secas (1964), transforma o cinema documental brasileiro em filme arte. Com um rigor técnico desterritorializado, que traz sequências de um futebol cinematográfico e cenas inéditas, as quais nunca se imaginou ver em qualquer televisão do mundo. Garrincha faz sucesso não apenas por essa dedicação à estética cinematográfica, mas porque mostra a visão popular sobre o futebol brasileiro, em linguagem cinematográfica.

Com este filme, o idealismo patriota ressurge, ganhando força a nação brasileira, nos mitos de maiores sucessos na época: o futebol, o samba e o Cinema Novo. Naquele momento, o amor à pátria firmava a idéia de nação brasileira, e tornava cineastas e populares tão próximos, que a certeza de transformação social por um cinema político, aliado às outras vanguardas artísticas como o teatro e a música, fariam o país crescer. Em pouco tempo, o golpe militar surgiria para interceder no desenvolvimento desse sentimento nacional.

4.O cinema novo: cinema político e universal – Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967)

A lição deixada pelos cineastas brasileiros durante o processo que sofreram no cinema dos primeiros anos da ditadura, foi construir uma política definitivamente autoral. Após serem tolhidos, com os cortes realizados pela censura, cineastas como Glauber Rocha, Rogério Sganzerla e Júlio Bressane passam a se dedicar à questão nacional, como subterfúgio à perseguição política dos “patrióticos” militares brasileiro e à presença dominante dos “enlatados” americanos ( XAVIER, 2001).

Terra em Transe, desconstrói em sua narrativa subliminar, alegórica, cheia de engajamento, o entendimento do cinema político pela organização de censura. Glauber costura um transe que discute a questão territorial e política de toda a América Latina. Um filme incompreensível aos organismos censores em primeira análise, pois traz também a reflexão mundial do que estava sendo produzido nas escolas modernas do cinema e do teatro. Os personagens negam aceitar uma pátria, que no enredo, figuram representações de tipologias sociais próprias dos países latinos.

Enquanto a ditadura militar brasileira cegava a maior parte da população, fazendo-os acreditar no milagre econômico e em uma paz artificial instaurada, o cinema novo e o cinema marginal continuavam construindo a discussão sobre o processo político nacional. Mostrando suas produções ao mundo, na marginalidade, contrabandeando cópias de filmes sem cortes, e distribuindo de forma independente, atravessando as fronteiras controladas, nas mãos de cidadãos do mundo, pois acreditavam que podiam resistir e assim era possível. (XAVIER, 2001)

Sobre o sentimento que o fazia os cineastas acreditarem na abertura política, Rousseau em seus estudos sobre o Patriotismo afirma:

Todo verdadeiro republicano sugou com o leite de sua mãe o amor de sua pátria, isto é, das leis e da liberdade. Este amor faz toda a sua existência; ele nada vê além da pátria, vive somente para ela; quando está só, ele é nada: quando não tem mais pátria, não mais existe; e se não está morto, está ainda pior.

(ROUSSEAU, 1973 p. 177-178).

5.Embrafilmes: nacionalização e controle – nacionalismo como mercado ?

Com os filmes brasileiros na clandestinidade,  sendo exibidos nos Festivais de Cinema mundo a fora,  interessados em  organizar o mercado cinematográfico  e propagandear positivamente a cultura brasileira  pelos veículos da ditadura, o governo , em 1974, cria um departamento estatal conhecido como Embrafilme. O retorno do apoio do Estado à “sétima arte” injetou um aumento na produção de filmes nacionais com sucesso de bilheteria   como Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976), de Bruno Barreto e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), de Hector Babenco.
Milhões de brasileiros passaram a frequentar as salas de exibição na expectativa de presenciar a nova produção nacional, subsidiada pelo estado, totalmente oposta ao cinema engajado e independente do período duro de controle cinematográfico. Em contrapartida, o que se visualizou nesse período foi um efetivo vazio cultural ocasionado pelo desgaste da perseguição política.

O  regime militar e a censura vão se enfraquecendo e  em 1985,  a liberdade de expressão consegue um certo espaço e alguns filmes antes censurado, voltam a serem exibidos, mas já com nenhum impacto e pequena audiência. Foram 15 anos de uma produção inexpressiva da cinematografia nacional, e grandes investimentos público no mercado produtivo. Mesmo com a nacionalização da cadeia produtiva, os problemas continuavam os mesmos: distribuição e  exibição, ausência de  algo novo e  de público popular  entre outras deficiências que levaram à extinção da Embrafilmes pela política neo liberal do governo Collor.

Com o fim da Embrafilmes, o  cinema brasileiro entra em um período maneirista e, após um tempo, toda a sua produção passa a atender políticas culturais nacionais de renúncia fiscal.  Este maneirismo significa um momento de crise, em que as questões estéticas, essenciais à arte,  são sobrepostas pelas questões de interesse de Estado e de mercado. Sobre essa fase de crise estética e financeira, Xavier pontua:

…Sejam quais forem os mecanismos de viabilização do cinema na nova conjuntura, a sua relevância dependerá da força de expressão e da envergadura de seus autores, dentro das várias tendências. Por mais que tenhamos hoje uma ansiedade pelas fórmulas rentáveis e por mais que o nacionalismo gere uma visão tolerante do que é simplesmente oportuno no mercado, a aplicação de fórmulas e o recurso a gêneros consagrados se mostram hoje insuficientes para revigorar o cinema brasileiro. (XAVIER, 2001p. 115)

Conclusão

Numa tentativa de se fazer um paralelo, entre a definição do mito de Pátria brasileira, que no bojo da cinematografia nacional, enquanto uma expressão paralela entre: o que esta pretende perante o Estado nacional, perante o mercado mundial e perante sua proposta estética, é possível pontuar alguns aspectos:

Os filmes brasileiros dos grandes estúdios cinematográficos parecem ter representado uma caricatura de mitos nacionalistas para um grande público. É inegável a importância que estas produções tiveram para a fase crítica e reflexiva posterior, sobretudo sobre a construção de uma proposta que mesmo elitizada na exibição, possibilitou a desconstrução do mito Patriótico inconsequente. Ao contrário disso, possibilitou o surgimento de um cinema vanguardista e produtivo, sem negar a realidade da cultura brasileira e seus mitos.

O cinema brasileiro de vanguarda não atingiu, em sua totalidade, sucessos de bilheterias, devido à vários fatores, principalmente a prática de controle da distribuição, pelos organismos de censura. Mas também exerceu um papel importantíssimo, de construção da identidade cinematográfica nacional tanto como linguagem como modo de produção. A independência financeira do Estado no momento da produção, a precariedade de distribuição e eficiência na exibição do cinema novo e marginal, trouxeram para a nossa história, um horizonte possível de embasamento crítico. Para que os novos cineastas e um novo cinema brasileiro possa existir, deverão assim evitar o controle de forças alheias ao processo crítico que o cinema suscita como mídia de massa. Questões muitos mais amplas do que somente o papel do Estado e do mercado devem ser analisadas, sempre com olho no exemplo do passado, o papel da cadeia produtiva nos processos criativos e de sustentabilidade, na construção coletiva de uma política cinematográfica nacional. Não totalmente a favor de Glauber Rocha, que acreditava que se:

…o Governo Federal atender às legítimas necessidades dos independentes, é certo que o cinema brasileiro crescerá para se impor no mundo, em bem pouco tempo.(ROCHA, 2003 p.176)

Políticas públicas precisam ser construídas, a fim de evitar que o cinema ser torne mais uma mídia controlada por forças que vão além da sua própria arte.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, José Murilo. Formação das Almas. São Paulo: Editora Scipione 1990. págs. 20 a 64

FABRIS, Mariarosaria. História do cinema mundial: Neo-Realismo Organização: Fernando Mascarello.Campinas, SP: Papirus, 2006 (Coleção Campo Magnético) págs. 191 a 220

FRANÇA, Andréa. In:História do cinema mundial. Organização: Fernando Mascarello. Campinas, SP: Papirus, 2006 (Coleção Campo Magnético) págs. 395 a 412

MANEVY, Alfredo. In: História do cinema mundial. Organização: Fernando Mascarello. Campinas, SP: Papirus, 2006 (Coleção Campo Magnético) págs. 221 a 253

PARENTE, André. Ensaios sobre o cinema do simulacro: cinema existencial, cinema estrutural e cinema brasileiro contemporâneo / André Parente: Prefácio, revisão técnica e organização: Liliane Heynemann – Rio de Janeiro: Pazulin, 1998. 149 p. A 151 p.

ROCHA, Glauber. Glauber Rocha: Revisão Crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 240 p. ,53 ilust.

ROUSSEAU, J.-J. (1973). Do Contrato Social. Ensaio sobre a origem das línguas. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Discurso sobre as ciências e as artes (Coleção Os Pensadores, vol. 24). São Paulo: Abril.

VIANY, Alex. O processo do cinema novo. Organização: José Carlos Avellar – Rio de Janeiro :Aeroplano, 1999. 125 a 156 p.

XAVIER, Ismael. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001 (Coleção Leitura) págs. 09 a 116





O ENVELHECIMENTO NO BRASIL

5 02 2010

UM ESTUDO SOBRE O ENVELHECIMENTO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA

Este artigo procura traçar o percurso da  velhice pricipalmente no Brasil.  Hoje, a questão da velhice abarcou várias áreas de conhecimento, como a sociologia, a demografia, a história, a psicologia e a psicanálise, assim como os estudos antropológicos, que abriram caminho e apresentam a questão da velhice como objeto de investigação. Todos procuraram com isso, responder a várias indagações, como os significados e as práticas sociais referentes às idades ao longo do curso da vida e a própria sociedade urbana contemporânea, pois como sabemos, o envelhecimento é um processo fisiológico e não está necessariamente ligado à idade cronológica.

Antigamente, nas sociedades tradicionais, os velhos eram bastante considerados, por serem sinônimo de lembranças e sabedoria. Atualmente o descaso e o desprezo os excluem da sociedade, que os julgam improdutivos. É comum encontrar idosos abandonados e ignorados dentro da própria família. Geralmente a velhice está ligada às modificações do corpo, com o aparecimento d rugas e dos cabelos brancos, com o andar mais lento, diminuição das capacidades auditiva e visual, e o corpo frágil. Essa é a velhice biologicamente normal, que evolui progressivamente e prevalece sobre o envelhecimento cronológico.

A expectativa de vida vem sofrendo modificações ao longo dos anos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (2009) a consequência natural disto foi o aumento da vida média do homem, que hoje se situa em torno de 71 anos (20 anos a mais do que no ano de 1950). Atualmente estima-se que cada 10 indivíduos no mundo, um tenha mais de 60 anos, idade acima da qual o indivíduo é considerado idoso no Brasil.

Este artigo vai utilizar como  referência  um filme brasileiro de Cacá Diegues, um dos representantes do cinema novo. Em 1978 com o filme Chuvas de Verão Cacá Diegues é lançado no mercado nacional. O personagem principal do filme, Afonso, interpretado por Jofre Soares, é um recém-aposentado morador em um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, cortado pela linha de trem da Central do Brasil. Depois de uma festa de despedida feita pelos colegas de trabalho em ume scritório no centro da cidade, pelos colegas de trabalho em um escritório no centro da cidade, Afonso vai para casa para começar seu novo tempo de vida como aposentado. Sua expectativa para este período pode ser resumida na cena em que ele abre a gaveta da cômoda, pega um pijama listrado e, vestido de pijama sai para dar uma volta pelo bairro com a intenção de nunca mais precisar tirá-lo.Como se fosse um ritual de passagem para o novo momento da sua vida.

Isso seria uma não-função, ou o ócio, como está escrito na faixa que a vizinhança apresenta ao recebê- lo,em casa, no seu último dia de trabalho. Mas não é bem isto que acaba acontecendo. Acontecimentos em série,  turbulentos e dramáticos vai dar uma reviravolta em sua vida, como a cena em que Afonso descobre que sua vida sexual não acabou e, em uma cena pouco esperada para os padrões da época quanto ao comportamento sexual na velhice.

Envelhecimento no Brasil

Em consonância com as discussões que se realizam em países socialmente mais desenvolvidos, no Brasil o debate que se estabeleceu nos diferentes fóruns acadêmicos, políticos e comunitários, sobre o papel do idoso na nossa sociedade. Apesar da vasta abrangência e da carência de aprofundamento em questões fundamentais como os conflitos intergeracionais e o entendimento da terceira idade como portadora de necessidades específicas, tem variado seus contornos e assumidas diferentes feições, cada uma delas de acordo com o enfoque adotado para a questão e vinculada ainda ao contexto em que a discussão se realiza (IBGE, 2009c).

A adoção de um determinado enfoque para o tratamento da questão da terceira idade conforme o caráter das articulações envolvidas, se dá em detrimento de outras opções colocadas, ou seja, a partir da  eleição  de  um  “the best way”, nasce uma grande solução para os diferentes problemas existentes, propondo um modelo gestão que entende a saúde pública como a saúde da maioria.

A importância sobre a escolha da forma de tratar a questão do idoso, à luz de um modelo que confira a este uma perspectiva cidadã, transcende aspectos puramente técnicos e políticos. Ele envolve, em relação a este grupo social, demandas e especificidades variadas, associadas às peculiaridades do “modo de ser brasileiro”.

Tem sido observado um aumento gradativo da longevidade da população brasileira resultado da diminuição das taxas de fecundidade e de mortalidade nas últimas décadas. Como conseqüência, desencadeia-se o fenômeno de envelheciment populacional, gerando novas demandas sociais. O índice de envelhecimento (número de pessoas idosas para cada 100 indivíduos jovens) passou de 21 em 1991 para 39,4 em 2008 (IBGE, 2009c).

No Brasil, para fins de levantamentos demográficos, considera-se idoso o corte definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para os países em  desenvolvimento, isto é, a partir de 60 anos. Assim, quando se refere ao idoso em solo brasileiro, inclui-se na contagem aquelas pessoas que atingiram essa idade. Porém, não se pode e nem se deve esquecer que a velhice possui diversas faces, sobretudo numa sociedade como a brasileira, marcada pela desigualdade social, onde há uma exorbitante concentração de renda e conseqüentemente um alto índice de pobreza (SILVA, 2005). O aumento do índice da população idosa está também relacionado à queda da taxa de fecundidade. Outra dimensão do processo de envelhecimento no Brasil diz respeito à sua feminização, uma vez que a maior proporção de idosos é constituída por mulheres e essa tendência tem aumentado 15%. É válido lembrar que na Europa e América do Norte o fenômeno do envelhecimento apresentou-se de forma paulatina, ou seja, teve início há quase cem anos atrás. Esse não tem sido o caso do Brasil, cujo processo começou na década de 1960, sendo marcado por uma velocidade de expansão sem precedentes. (IBGE, 2009c).

A reflexão sobre o envelhecimento de uma população não pode e nem deve se resumir a uma mera análise demográfica, mas deve incluir os aspectos socioeconômicos e culturais de um povo, a fim de que se possa perceber de forma mais nítida as conseqüências, mudanças, desafios e perspectivas que esse processo traz consigo e quais as medidas e as políticas sociais que devem ser adotadas diante desse novo fenômeno que se apresenta à sociedade brasileira  (SILVA, 2005; WONG & CARVALHO, 2006).

Atualmente, mesmo que as condições de vida, sob o ponto de vista socioeconômico, não tenham melhorado significativamente, para uma parcela considerável da população dos países em desenvolvimento, as taxas de mortalidade vêm experimentando substanciais diminuições. Elas são resultantes de intervenções, de medidas específicas de saúde pública, do tratamento efetivo de infecções, muitas vezes dissociadas de melhores níveis de vida para a maioria dos habitantes (como na Europa pós-Revolução Industrial).

O processo de envelhecimento no Brasil e na América Latina vem ocorrendo em um contexto marcado por uma alta incidência de pobreza, desigualdade social e um desenvolvimento institucional caracterizado pela falta de sintonia com o contingente da população idosa. Ademais, dados referentes à pobreza na velhice ainda são limitados ou quase que inexistentes. Contudo, pode-se partir do princípio de que a pobreza, numa sociedade desigual como a brasileira ocasionará, conseqüentemente, sua reprodução na velhice, sobretudo quando se considera o aspecto da morbidade, próprio dessa faixa etária.

Como bem explicitado no filme de Cacá Diegues (Chuvas de Verão) para Afonso e os velhos de sua geração, a aposentadoria está associada à velhice e a um conjunto de imagens negativas e estigmatizantes dessa fase da vida, como a perda dos espaços de sociabilidade constituídos a partir do mundo do trabalho, a falência da saúde e da força física e mental.

A promessa de satisfação em usufruir seu próprio tempo, mistura-se com o medo deste momento que lembra fim de vida e, desta forma, a velhice, assim como a aposentadoria, acaba se configurando como uma morte social. Mas em Chuvas de Verão é o próprio personagem que descobre um outro caminho para viver esta fase da vida.

Do conjunto das questões levantadas acima, serão ressaltadas duas em um primeiro momento: a primeira trata das mudanças das percepções da trajetória de vida dos indivíduos em função das situações sociais relativas à classe, ao gênero e à geração. E a segunda diz respeito às mudanças geracionais que vão marcar o ethos e a visão de mundo de uma geração para a outra. Para apresentar estas questões, será examinado um conjunto de pesquisas sobre memória, identidade social, projeto de vida, família e velhice; desta maneira pretende-se delinear o campo teórico e metodológico onde se situam estas discussões que, em última instância, estão enfocando a relação entre indivíduo e sociedade.

A narrativa do filme, por sua vez, sugere aproximações temáticas e de sensibilidade com as pesquisas antropológicas sobre velhice no Brasil. Cacá Diegues trata, na linguagem do cinema, de algumas das temáticas com as quais a antropologia das sociedades complexas contemporâneas  desenvolve a análise das relações sociais neste contexto: a heterogeneidade das trajetórias de vida, o campo de possibilidades para a realização de projetos e construção de narrativas de lembranças; a pluralidade de mundos sociais; as diferenças e desigualdades de classe, gênero e geração, e a sociabilidade e as interações sociais nos espaços público e privado.

Na década de 1970, a velhice e o envelhecimento não estavam nas pautas dos jornais e nas telas da televisão como hoje e não eram, ainda, temas francamente debatidos nos espaços públicos e na academia. Vivia-se com uma imagem do país como um país jovem, imagem que é reforçada nos governos militares com os slogans como o famoso “Prá Frente Brasil!”, que tentava demonstrar uma nação com grande futuro pela frente e onde as características demográficas de um enorme contingente de jovens e crianças asseguravam as bases para a legitimidade desta imagem.

6 – Terceira idade e a velhice estigmatizada

Uma das manifestações destas mudanças é vista pela elaboração recente da idéia de terceira idade. Nesta idéia há uma incorporação de fenômenos sociais da sociedade industrializada e urbanizada que Norbert Elias identifica como “o orgulho que têm as pessoas altamente individualizadas de sua independência, sua liberdade e sua capacidade de agir por responsabilidade própria e decidir por si” (ELIAS, 1994: 108).

Traduzidos nos termos dos ideais da terceira idade, a independência, a liberdade, e a capacidade de agir significam a reprivatização da velhice, a qual, segundo Guita Debert (1999), corresponde à responsabilização do indivíduo por seu próprio cuidado e bem-estar.A construção social do conjunto de idéias e práticas sobre a terceira idade se opõe ao estigma da velhice que é percebida como o fim da vida, como doença ou como solidão.

Retomo pela segunda vez a linguagem  cinematográfica:   com (O Declínio do Império Americano, 1986) um filme que mostra um grupo de amigos, professores de universidades canadenses que, na década de 1970, se reúnem para falar de si mesmos e da sociedade em que vivem, voltam à cena quase 20 anos depois. Naquela ocasião a família, a revolução sexual, a homossexualidade, a utopia política nos projetos de esquerda eram temas focalizados. Estes assuntos retornam neste filme, mas agora são examinados pelos personagens mais como memória do que como projeto. O envelhecimento assume o lugar central do drama. Não muito distante destas indicações estão as regras de bem viver a velhice, com sabedoria.

Política Nacional de proteção ao idoso no Brasil.

Com vistas a melhor situar a questão da saúde do idoso no Brasil, em termos das políticas públicas para o setor, deve se ressaltar que este corte social é tratado no conjunto das medidas relacionadas aos programas de desenvolvimento social, lembrando ainda que, as políticas sociais devem estar voltadas a resgatar a dívida com os excluídos do processo de desenvolvimento.

No filme de Cacá Diegues, em uma cena que o personagem pricipal Afonso, já aposentado, começa  a  refletir sobre o rumo futuro de sua nova vida, onde cenas montadas com cortes rápidos e sobrepostas mostram um retrospecto da vida do personagem, explicita claramente a intenção do Diretor ao mostrar os hospitais públicos (antigo INPS ) superlotados de uma população totalmente desamparada  e carente da proteção dos poderes públicos. Essa cena é um símbolo iconográfico, pois ainda hoje permanece atual.

No Brasil a responsabilidade pelo desenvolvimento social é competência de todas as esferas de governo bem como da própria sociedade, responsabilidade esta constante na Constituição Federal, promulgada em outubro de 1988, e desdobrada em leis complementares e ordinárias.

O problema da seguridade social advém do grande aumento da população aposentada em relação à mão-de-obra ativa, ou seja, à redução desproporcional do número de pessoas que financiam os aposentados. Em países onde a expectativa de sobrevida é maior a situação se torna mais grave como na União Européia. (SILVA, 2005).

A questão da saúde é tão ou mais importante, na medida em que a performance desta área implica numa alteração da quantidade de mão de obra disponível para a produção de bens e serviços. Outro aspecto relevante em relação às políticas públicas de saúde e ao aumento da expectativa de vida da população, é que os gastos com saúde tornam-se cada vez maiores com o passar do tempo. As pessoas da terceira idade,  em geral estão mais sujeitas a acidentes e, segundo Passarelli (1998), às doenças crônicas e degenerativas, em razão do déficit ou falência das suas percepções sensoriais e do desgaste físico natural da velhice. Por outro lado, o gasto para recuperação da saúde de cada idoso também é maior, posto que sua fragilidade orgânica aumenta com o passar do tempo, o que implica, por fim, em um maior período de permanência em tratamento, em regime  de  internação ou não.

Além da questão do aumento progressivo dos gastos com o tratamento de saúde das pessoas da terceira idade, emerge o debate sobre as instituições responsáveis pelo atendimento a esta população, bem como a formação de recursos humanos específicos para este segmento social.

A percepção destas questões colocou em foco discussões no âmbito de toda a sociedade que, por fim, a reboque das decisões tomadas durante a realização por parte da Organização das Nações Unidas da I Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento, em 1982, levou a que fossem inseridas na Constituição Federais de 1988 as preocupações formais com a proteção à terceira idade. (SILVA, 2005). Ainda neste escopo, o Governo Federal, através da Lei nº 8.842 de 04 de janeiro de 1994, definiu e consolidou a Política Nacional do Idoso, legislação avançada, inclusive quando comparada no âmbito internacional, que, entretanto, no seu dia-a-dia esbarra no déficit estrutural do nosso sistema de saúde, ou seja, os meios preventivos e terapêutios disponíveis são insuficientes para o fiel cumprimento do proposto na lei.

Conclusão

O presente trabalho se propôs a fazer um breve relato do contexto brasileiro no que se refere ao Envelhecimento de nossa população assim como das políticas de proteção a pessoa idosa, necessitando entretanto de aprofundamentos tanto no que tange as questões demográficas quanto ao estudo e avaliação de aspectos políticos institucionais e legais.

Apesar da velhice não ocupar um espaço central na temática cinematográfica são inúmeros os filmes que geram, em luz e sombra, múltiplas imagens do envelhecimento humano.

A originalidade do filme Chuvas de verão de Cacá Diegues, está em mostrar que há desejo, conflitos,  entre pessoas de terceira idade. O filme fala do sexo, do desejo e do amor na velhice. O segredo parece estar na maneira bela e envolvente como o cineasta trata do desejo e do amor na velhice em seu filme, e talvez no fato de abordar um amor heterossexual. Carlos Diegues conta que apesar dessa questão estruturar o filme, este foi pensado em torno do “aposentado que começa a descobrir a verdadeira vida, por baixo das aparências, de seus vizinhos, não se interessando apenas pelo amor na terceira idade”.

Relação de filmes que abordam o tema envelhecimento.

A Balada de Narayama (1983)
O filme foi baseado na novela de Schichiro Fukazawa, escrito e dirigido por Shohei Iamamura e produzido por Jirotomoda. Venceu o Festival de Cannes em 1983.

Asas do desejo (1987)
Filme dirigido e produzido por Wim Wenders. Foi premiado com a Palma de Ouro de melhor direção no Festival de Cannes e considerado o melhor filme da 12a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Buena Vista Social Club (1999)
Filme de Wim Wenders produzido por Ulrich Felsberg e Deepak Nayar. As gravações e concertos em estúdio foram produzidos por Ry Cooder pela World Circuit.

Chuvas de verão (1978)
Um filme de Carlos Diegues.

Conduzindo Miss Daisy (1989)
Baseado na peça teatral de Alfred Uhry ganhou Oscar de melhor filme, melhor atriz (Jessica Tandy), melhor roteiro adaptado e melhor maquiagem em 1990, foi vencedor de três Globos de Ouro como melhor filme, melhor atriz e ator, e conquistou o prêmio Pulitzer.

Copacabana (2001)
Dirigido e produzido por Carla Camurati. O roteiro foi criado por Carla Camurati, Melanie Dimantas e Yoya Würsch.

Deuses e monstros (1998)
Filme de Bill Condon baseado na novela O pai de Frankestein de Christopher Bram, e produzido por Paul Colichman, Gregg Fienberg e Mark Harris.

Estamos todos bem (1990)
Filme de Giuseppe Tornatore.

Laços de Ternura (1993)
Filme de James L. Brooks, baseado no livro de Larry MacMurtry e vencedor de cinco Oscars.

Sonhos ( 1990 )

Filme de Akira Kurosawa. Dirigido por Ishirô e Honda

Antes de Partir

(The Bucket List, EUA, 2007, 97 min)

Dois velhos mais rabugentos

Grumpier Old Men, EUA, 1995, 101 mi.

José

Filme retrata o olhar de uma menina sobre a morte do avô

Juventude

de Domingos Oliveira. Brasil, 2008.

Matadores de Velhinha

Título Original: The Ladykillers.

Meu pai, uma lição de vida

Dad, EUA, 1989, 117 min.

Os filmes e os velhos

Por Victor Afonso

Arte de Viver

Pushing hands, China, 1992

As pontes de Madison

The Bridges of Madison County, EUA, 1995, 135 min.

Buena Vista Social Club

ALE-EUA-FRA-CUB/1999, 101 min

Cocoon

EUA – 1985, 118 min.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA (IBGE). Índice de

envelhecimento. Indicadores Demográficos, Brasil, 2004c. Disponível em:

<http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/idb2004/a15uf.htm&gt; Acesso em: 02 Fev. 2009.

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Alves, Andréa Moraes (2001), “Velhice, mudança social e percepção do risco”, em G.

Velho e K. Kuschnir (orgs.), Mediação, Cultura e Política, Rio de Janeiro, Aeroplano

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Hareven, Tâmara (1999), “Novas imagens do envelhecimento e a construção social do

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Antropologia Urbana: Cultura e Sociedade no Brasil e em Portugal, Rio de Janeiro, Jorge

Zahar Editor, pp. 43-57.





O fim anunciado para todos _ Por que é tão difícil aceitar a morte?

5 02 2010

Este presente artigo tem como objetivo central discutir aspectos relativos à morte e ao ato de morrer e suas conseqüências na sociedade, com suas diferentes interpretações culturais e superstições formadas. No período primitivo de nossa história, esta relação foi de compromisso e respeito. Para os homens não havia apenas o cadáver, mas uma outra dimensão de vida a ser respeitada, que continuaria a viver embaixo da terra, mediante a realização de certos rituais, os quais chegaram a se elevar ao estágio de religião.  (ASSUMPÇÃO, 2005). Porém, ao longo do tempo, a morte foi perdendo sua característica de natural ao homem, passando a ser negada pelo mesmo.

André Malraux (1901-1976), pensador francês, escreveu que “na vida somos hóspedes de passagem”. A morte é um processo biológico natural e necessário. É condição indispensável à sobrevivência da espécie. Através da morte a vida se alimenta e se renova. Desta maneira a morte não seria a negação da vida e sim um artifício da natureza para tornar possível a manutenção da vida. O conceito puramente biológico de morte, entretanto, não é bem aceito pelo homem. O homem tende a analisar a morte filosoficamente, criando aspectos que transcendem aqueles puramente biológicos.

A duração máxima da vida humana, segundo os conceitos médicos, atualmente é de cerca de 120 anos. Alguns pesquisadores dedicados ao estudo dos mecanismos de morte trabalham com uma expectativa de levar a vida até os 400 anos. A ciência que estuda a morte é denominada tanatologia.  Segundo a ciência, morte é a cessação da vida devida a alterações irreversíveis que ocorrem no metabolismo celular. A tanatologia estuda aspectos biológicos, sociais, psicológicos, emocionais, legais e éticos relativos à morte.

O termo Tanatologia vem do grego thánatos, que representa o Deus da morte da mitologia grega; e logia, que significa estudo. Assim, para Assumpção (2005), tanatologia seria o “estudo da morte”, ou “ciência da morte”. A ciência tanatológica pode ser considerada tão antiga quanto à própria humanidade. Um exemplo é o homem-de-Neandertal (homo neanderthalensis), que existiu há cerca de 100 mil anos, quando já vivia em pequenas comunidades, enterrava seus mortos em posição fetal, com os objetos de uso pessoal dos mesmos, além de alimentos e flores. Para Assumpção (2005) a arqueologia comprova que a relação, dos povos que foram surgindo, com a morte era significativa. Dois textos antiguíssimos, de duas civilizações distintas, referem-se exclusivamente à morte: o Bardo Thödol, livro dos mortos tibetanos, e o livro dos mortos, do antigo Egito.

Hoje, no século XXI, observamos, que a morte ainda constitui-se como um mistério para o ser humano e até mesmo um problema. Ávido por usufruir da vida, o homem, constantemente se vê ameaçado pela morte, pela qual tenta consciente e inconscientemente fugir. (Assumpção, 2005)

Moser e Soares (2006), afirmam que o aparelho social moderno nos arrasta para uma vida cheia de contradições: oferece tudo e nos nega tudo ao mesmo tempo.Tudo parece ser necessário, fácil, útil e realizável. A morte para todos os povos, em todos os tempos, representa algo comum, fascinante e ao mesmo tempo ameaçadora e influencia em nossa qualidade de vida. Mesmo que desprezemos qualquer idéia de uma vida após a morte, essa realidade independente de nossas ideologias ou fantasias, é arraigada na natureza humana, desinstala-nos, ou pelo menos incomoda-nos. A morte ainda é um tabu, pois não conseguimos resolver o próprio mistério de quem somos.

Visão biológica

Talvez nada seja mais claro e objetivo na vida de todas as pessoas do que a consciência que todos irão morrer, e de que a morte é o fim de um ciclo, ou como outros querem entender o começo de um novo ciclo ainda não explicado. Todos tendem a colocar a morte como um mistério incompreensível, ou como algo inaceitável Na realidade, o tema morte se comporta como uma espécie de assunto proibido ou não discutido, é um tema que as pessoas não costumam e não gostam de conversar. Mas de qualquer forma, aceitando ou não, a morte é um fato, uma verdade implacável, onde ninguém é capaz de fugir. Por mais dúvidas que esse assunto suscite, nada é mais correto que a certeza que todos iremos morrer. Do ponto de vista biológico, a morte é “natural” não por estar em conformidade com a natureza, mas é natural apenas no sentido de que é universal e inevitável. Por mais incrível que possa parecer, o que mais caracteriza o organismo vivo é a imortalidade e não a morte. (TORRES ET AL, (1983). As células vivas são potencialmente imortais, sendo assim a morte dos seres vivos não decorre da sua propriedade original de ser vivo, mas sim de condições especiais de sua organização como ser vivo. Desta forma, a biologia descobriu que a morte não é uma fatalidade da vida orgânica. Para ela, a vida não é a morte, como diria o filósofo alemão Heidegger, “a angústia da morte seria incompreensível se a estrutura fundamental de nosso ser não contivesse o postulado existencial de um ‘outro lado’” (LANDSBERG , 1951). Landsberg contraria Heidegger afirmando que a pessoa humana, na sua essência, não é existência para a morte. A morte no seu contexto médico pode ser definida como sendo o cessar irreversível do funcionamento de todas as células, tecidos e órgãos; do fluxo espontâneo de todos os fluídos, incluindo o ar (“último suspiro”). Por mais objetivo que possa ser as definições do que seja morte, ou a inevitabilidade do morrer ,o difícil é a aceitação da morte.

Visão psicológica

A morte é conseqüência da vida. Todos começam a morrer exatamente no dia em que nascem. Seja pelas raízes culturais ou pelo medo inerente ao ser humano de achar que se pode escapar da morte, que existem outros caminhos a serem traçados que não cheguem ao fim, mas todo princípio tem seu fim. A vida é um ciclo, com início, meio e fim. Podendo definir que início é o nascimento, o meio é o decorrer todo da vida e o fim é a morte. Se esse ciclo se repete, já é uma questão que entra em convicções culturais e religiosas. O conhecimento da morte é conceitual e, enquanto os outros animais são poupados dessa consciência, talvez pela própria falta da mesma, o homem convive a vida inteira com o destino da morte. O próprio Freud analisava que o medo da morte é o medo básico e ao mesmo tempo fonte de todas as nossas realizações: tudo aquilo que fazemos é para transcender a morte. Ele afirma que a morte deveria ser vista como algo natural, inegável e inevitável, mas que na realidade temos um comportamento diferente, “revelávamos uma tendência inegável para pôr a morte de lado, para eliminá-la da vida”. (FREUD apud BECKER, 1973, pg. 47). Tal atitude desempenha poderes em nossa vivência, trazendo renúncias e exclusões. Para Freud, morremos como os heróis que nós projetamos. Becker (1973) deixa claro em sua obra a negação da morte, que Freud sempre fugiu de tentar explicar a morte, fator, talvez, mais importante que a própria sexualidade usada por Freud como motivo principal de todos os comportamentos humanos. Becker tenta mostrar que o próprio Freud sofria do medo da morte, por isso não abordava tal tema.

Outra questão que tangencia o fator psicológico da morte é a fé, “a melhor análise existencial da condição humana leva diretamente ao problema da existência de Deus e da fé” (BECKER 1973, pg. 25). A sociedade procura a fé em Deus como forma de se apoiar no que é desconhecido, talvez nada seja menos conhecido do que o próprio Deus, mas nada é mais correto, ou não, do que a existência do mesmo. A fé é a construção desse imaginário, e serve como acalanto para a idéia da morte. Mas ao mesmo passo que há fé para esquecer e fugir da morte, não há fé que venha compreender e fazer aceitar de fato a morte como ela é: uma realidade de fato.

O medo da morte

Como se pode ver os fatos biológicos, médicos e psicológicos nos ajudam a compreender o medo e a angústia do homem frente à morte. No entanto, em algumas culturas e na nossa própria cultura, existiram épocas que o homem aceitava melhor a questão. Vivemos a vida inteira com o conhecimento da nossa própria morte, tentando evitar qualquer forma o que é inevitável. Em outras sociedades aprende-se a conviver melhor com a realidade da morte do que nós. A difícil aceitação da morte na nossa sociedade é difícil porque ela nos é estranha. Independente de que ela sempre aconteça, nós nunca a vemos. Normalmente quando algum paciente está em estágio terminal, seus familiares e amigos acompanham toda a trajetória da sua enfermidade, que pode durar dias, meses ou até anos. Mas se por alguma eventualidade esse mesmo enfermo venha à óbito, o processo de desaparecer com o mesmo é muito rápido, normalmente os velórios já acontecem no mesmo dia, e no dia posterior seu enterro, tudo isso para que não se tenha contato com o morto.  Fica-se triste pela saudade que o falecido irá deixar, e jamais se pensa no que é melhor para o próximo, em alguns casos, a morte é o melhor caminho para o enfermo.

O mundo transformou a morte em tabu: prefere-se esconde-la das crianças e nunca faz parte das conversas diárias. Tudo o que possa lembrá-la, como doenças, a velhice, as enfermidades, tudo é escondido e jogado à parte. Normalmente os doentes morrem no hospital, longe dos holofotes, e da proximidade de amigos e parentes. O luto acaba sendo cada vez mais rápido e comum, vela-se rápido, enterra-se mais rápido ainda. O medo natural que todo homem e mulher sente diante do seu próprio fim vira pânico.

Será que não cabe a nós confessar que em nossa atitude civilizada em relação à morte estamos, uma vez mais, vivendo psicologicamente além de nossos recursos, e devemos nos reformar e dar à verdade o valor que ela merece? Não seria melhor dar à morte o lugar na realidade em nossos pensamentos que lhe pertence, e dar um pouco mais de destaque aquela inconsciente atitude para com a morte que até aqui temos suprimido como tanto cuidado? Isso nem parece, realmente, uma realização de maior vulto, mais sim um passo atrás… mas tem o mérito de levar um tanto mais em consideração a verdadeira situação. (…)

Sigmund Freud, apud Becker

Os pós-darwianos viam o medo da morte como um problema biológico e evolucionário. Para Zilborg apud Becker (1983), psicanalista russo, o temor da morte, é na verdade um instinto de auto-preservação, que funciona como um constante impulso de manter a vida e dominar os perigos que a ameaçam. Esse gasto constante de energia psicológica na tarefa de preservar a vida seria impossível se o temor da morte não fosse tão constante. (ZILBOORG apud BECKER, 1983 ). O argumento da biologia e da evolução é bastante claro, a própria sobrevivência do animal depende do seu temor a morte, para a auto-preservação de sua espécie, já o homem não consegue enxergar da mesma forma, vê a morte como algo que não deve ser alcançado, principalmente pela indefinição do que virá após ela. No caso do homem, ser racional, ele sente temor por algo que não compreende e não tem informações factíveis para que possa entender o seu próprio fim.

Curta: O Pulso

No curta-metragem do diretor José Pedro Goulart, ano de 1997, intitulado de O Pulso, filme que rendeu vários prêmios, há a historia de um homem que caminhava num mar de pessoas desconhecidas quando de repente desaba no chão, como uma espécie de árvore, e simplesmente morre. E é levado ao necrotério, para que se faça a autopsia do mesmo. Até aí, seria uma simples ficção de uma fatalidade, muitas vezes comum. Só que o narrador é o próprio morto, e ele inicia narrando a história, mostrando que morreu, mas assumiu um estado de consciência, ou seja, ele percebia tudo que estava se passando ao redor. Ele inicialmente via a morte como redentora, como o caminho para a luz, como o paraíso ou talvez inferno, mas começa a ver que a morte se apresenta como uma banalidade, uma coisa que na realidade se foge pela total falta de conhecimento da mesma. Para ele não há mais a vida, mas os sentimentos continuam fazendo parte de sua consciência. Surge nesse meio, a história da sua médica legista, que ao abrir os olhos do morto, o mesmo se apaixona pelo olhar e vê que aquela era a mulher da vida dele. Em uma historia paralela, é contado com cenas em cortes rápidos, uma discussão, não muito clara sobre o motivo, ou sobre quem é de fato seu outro protagonista, que culmina no assassinato da médica legista dentro do necrotério, ao lado do morto. Talvez por ciúmes do marido traído, talvez por um amor não correspondido por um colega, não fica claro o motivo. Fica claro, a expectativa da morte da jovem pelo já morto desconhecido, de forma que eles possam se encontrar no “pós-vida”, acontece que ela simplesmente morre. Sem nenhum estado de consciência, sem que o morto possa conhecer a tão amada pelo fim de toda sua vida. E é assim que termina: a consciência dele de que todos morrem como nascem: Sozinhos.

“E aí você finalmente descobre tudo. E você sente a dor lancinante e o medo gelado. Ao contrário de você ela não tem qualquer reação. Não há vida do lado de cá. Vida é o que há antes da morte. Você é apenas um cadáver adiado. Todos morrem como nascem. Sozinhos…”

Trecho final do curta O Pulso

O filme retrata que a morte se encontra num campo subjetivo. Ele faz uma leitura sobre uma possibilidade da morte, mas não encerra o assunto como uma informação definitiva. O que fica claro com ele é a incerteza da morte. A morte é apresentada como algo banal, como uma situação corriqueira da vida de todas as pessoas, o que não deixa de ser verdade, mas não é tão fácil encarar dessa maneira por toda a sociedade.

Conclusão

A morte funciona como o último limiar não conhecido da humanidade. Por isso deixa de ser um tema corriqueiro, de conversas eventuais, até propriamente achar teóricos que queiram adentrar num tema tão controverso, e tão limitado quanto a sua real significação, então este presente trabalho tentou desvendar o porquê do medo da morte e como ele de certa forma influência na própria vida do homem. Fica claro que o medo da morte é o que impulsiona ou até mesmo impede o crescimento do ser humano. “a idéia da morte e o medo que ela inspira perseguem o animal humano como nenhuma outra coisa”, representando, em realidade, “uma proposição universal da condição humana” (BECKER 1973). Dessa forma, pode-se ver que as diferentes culturas constituem sistemas que têm por função negar a realidade da morte, permitindo assim que as pessoas vivam com a ilusão de estarem imunes ao Inevitável, sem o fardo de sua constante e penosa consciência. As pessoas vivem boa parte de sua vida tentando negar que um dia irão morrer muitas vezes como forma de não pensarem no que é mais factível na vida delas. Nada é mais claro do que todos irão morrer, e de que irão morrer da forma que vieram a mundo: sozinho. Por mais que queira fugir do que é inevitável, a morte estará lá, para dar o ponto final a essa história e a história de todos.

Referências Bibliográficas

BECKER, Ernest. A negação da Morte. Rio de Janeiro, Record, 1973.

D`ASSUMPÇÃO,Evaldo.Biotanatologia e Bioética. São Paulo, Paulinas, 2005.

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Morte: Estágio final da evolução. Rio de Janeiro, Record, 1975.

LANDSBERG, P. Louis. Essai sur l’expérience de la mort. Paris, Seuil, 1951.

MORIN, Edgar. O homem e a morte. 2 ed. Rio de janeiro, Imago, 1997.

MOSER, Antônio e SOARES, André Marcelo M. Bioética do consenso ao bom senso. Petrópolis, Vozes, 2006.

TORRES, Wilma, ET AL. A psicologia e a Morte. Rio de Janeiro, Editora da FGV, 1983.

http://www.bioetica.ufrgs.br/

http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1083. (Curta O Pulso)








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